Exercício resolvido de termodinâmica

Regresso à compressão brusca: balanços de entropia

Exercício 26 · Lição 6 — O segundo princípio da termodinâmica

  • produção de entropia
  • compressão adiabática
  • irreversibilidade
  • isentrópica
  • balanço de entropia
  • comparação algébrica

Enunciado

Retomam-se as duas experiências de compressão adiabática da lição 5, recordando aqui os resultados úteis. Um cilindro vertical termicamente isolado, de secção S\mathcal S, contém nn moles de gás ideal. O pistão também está isolado, move-se sem atrito e tem massa desprezável. As capacidades térmicas molares cVc_V e cPc_P são constantes, com

γ=cPcV>1,cV=Rγ−1,cP=cV+R.\gamma=\frac{c_P}{c_V}>1,\qquad c_V=\frac{R}{\gamma-1},\qquad c_P=c_V+R.

Inicialmente, apenas a pressão atmosférica P0P_0 atua no pistão: o gás está no estado A=(P0,V0,T0)A=(P_0,V_0,T_0), com P0V0=nRT0P_0V_0=nRT_0. Uma carga adicional de massa MM eleva a pressão exterior para

P1=P0+MgS=xP0,x>1.P_1=P_0+\frac{Mg}{\mathcal S}=xP_0,\qquad x>1.

As duas experiências partem de AA. Na primeira, a carga é acrescentada e depois retirada grão de areia a grão de areia: o gás segue a adiabática reversível A→B→AA\to B\to A. Na segunda, a carga é aplicada de uma só vez, atinge-se o equilíbrio B′B' e depois retira-se a carga de uma só vez, atingindo-se o equilíbrio B"B". A pressão exterior é constante em cada etapa brusca: P1P_1 durante a carga e P0P_0 durante a descarga. Supõe-se que as oscilações são amortecidas por dissipação no gás; o pistão está em repouso nos estados inicial e final e não armazena energia.

As duas compressões partem de A (centro). À esquerda, a carga é acrescentada progressivamente até B; a retirada progressiva leva o gás de volta a A. À direita, a carga é aplicada bruscamente até B'; a retirada brusca conduz a outro estado B”. O esquema mostra as compressões; os quatro estados são especificados abaixo.
Figura 1. As duas compressões partem de AA (centro). À esquerda, a carga é acrescentada progressivamente até BB; a retirada progressiva leva o gás de volta a AA. À direita, a carga é aplicada bruscamente até B′B'; a retirada brusca conduz a outro estado B"B". O esquema mostra as compressões; os quatro estados são especificados abaixo.

As leis de Laplace no caminho reversível e o primeiro princípio nos caminhos bruscos deram os resultados seguintes. Definem-se

θ=1+(γ−1)xγ,φ=1+(γ−1)/xγ.EstadoP/P0V/V0T/T0A111Bxx−1/γx(γ−1)/γB′xθ/xθB"1θφθφ\begin{aligned} \theta=\frac{1+(\gamma-1)x}{\gamma},\qquad \phi=\frac{1+(\gamma-1)/x}{\gamma}. \begin{array}{c|ccc} \text{Estado} & P/P_0 & V/V_0 & T/T_0\\ \hline A & 1 & 1 & 1\\[3pt] B & x & x^{-1/\gamma} & x^{(\gamma-1)/\gamma}\\[3pt] B' & x & \theta/x & \theta\\[3pt] B" & 1 & \theta\phi & \theta\phi \end{array} \end{aligned}

Em particular,

θ>x(γ−1)/γ,φ>x−(γ−1)/γ,θφ−1=γ−1γ2(x−1)2x>0.\theta>x^{(\gamma-1)/\gamma},\qquad \phi>x^{-(\gamma-1)/\gamma},\qquad \theta\phi-1=\frac{\gamma-1}{\gamma^2}\frac{(x-1)^2}{x}>0.

Todas as etapas são adiabáticas: Q=0Q=0 e W=ΔU=ncV(Tf−Ti)W=\Delta U=nc_V(T_f-T_i), contando positivamente a energia recebida pelo gás. Assim,

WAB=ncVT0[x(γ−1)/γ−1],WBA=−WAB,WAB′=ncVT0(θ−1),WB′B"=ncVT0θ(φ−1).\begin{aligned} W_{AB}&=nc_VT_0\left[x^{(\gamma-1)/\gamma}-1\right], & W_{BA}&=-W_{AB},\\ W_{AB'}&=nc_VT_0(\theta-1), & W_{B'B"}&=nc_VT_0\theta(\phi-1). \end{aligned}

A ida e volta reversível tem trabalho líquido nulo, enquanto o caminho brusco recebe WAB′B"=ncVT0(θφ−1)>0W_{AB'B"}=nc_VT_0(\theta\phi-1)>0.

  1. Calcular as variações de entropia em A→BA\to B e B→AB\to A e estabelecer o balanço de entropia da ida e volta reversível.
  2. Calcular ΔSAB′\Delta S_{AB'} e mostrar que é estritamente positiva. Que parte é trocada e que parte é produzida?
  3. Fazer o mesmo para a descarga brusca B′→B"B'\to B".
  4. Calcular diretamente ΔSAB"\Delta S_{AB"} e verificar que é igual à soma das duas produções anteriores. O caminho A→B′→B"A\to B'\to B" constitui um ciclo para o gás?
  5. Comparar os balanços energético e entrópico das duas idas e voltas. Explicar porque a ausência de troca de calor não implica conservação da entropia.

Dica

Dica
Entre dois estados de equilíbrio de um gás ideal,

ΔS=ncVln⁡TfTi+nRln⁡VfVi.\Delta S=nc_V\ln\frac{T_f}{T_i}+nR\ln\frac{V_f}{V_i}.

Para B′→B"B'\to B", usar TB"/TB′=φT_{B"}/T_{B'}=\phi e VB"/VB′=xφV_{B"}/V_{B'}=x\phi. As desigualdades recordadas no enunciado determinam os sinais. Em cada etapa, Se=0S_{\mathrm{e}}=0.

Solução detalhada

Solução
Questão 1. A tabela dá TB/T0=x(γ−1)/γT_B/T_0=x^{(\gamma-1)/\gamma} e VB/V0=x−1/γV_B/V_0=x^{-1/\gamma}. Substituindo na fórmula da entropia,

ΔSAB=ncVln⁡(x(γ−1)/γ)+nRln⁡(x−1/γ)=ncVγ−1γln⁡x−nRγln⁡x=nγ[cV(γ−1)−R]ln⁡x=0,\begin{aligned} \Delta S_{AB} &=nc_V\ln\left(x^{(\gamma-1)/\gamma}\right) +nR\ln\left(x^{-1/\gamma}\right)\\ &=nc_V\frac{\gamma-1}{\gamma}\ln x-\frac{nR}{\gamma}\ln x\\ &=\frac n\gamma[c_V(\gamma-1)-R]\ln x=0, \end{aligned}

pois cV(γ−1)=Rc_V(\gamma-1)=R. O regresso segue o mesmo caminho em sentido oposto, pelo que ΔSBA=0\Delta S_{BA}=0. Para cada etapa e para toda a ida e volta, Se=Si=ΔS=0S_{\mathrm{e}}=S_{\mathrm{i}}=\Delta S=0. O gás recupera o estado AA.

Questão 2. Para a compressão brusca, TB′/T0=θT_{B'}/T_0=\theta e VB′/V0=θ/xV_{B'}/V_0=\theta/x. Usando R=cV(γ−1)R=c_V(\gamma-1) e depois as propriedades dos logaritmos,

ΔSAB′=ncVln⁡θ+nRln⁡θx=ncV[ln⁡θ+(γ−1)(ln⁡θ−ln⁡x)]=ncV[γln⁡θ−(γ−1)ln⁡x]=ncVln⁡(θγxγ−1).\begin{aligned} \Delta S_{AB'} &=nc_V\ln\theta+nR\ln\frac{\theta}{x}\\ &=nc_V[\ln\theta+(\gamma-1)(\ln\theta-\ln x)]\\ &=nc_V[\gamma\ln\theta-(\gamma-1)\ln x]\\ &=nc_V\ln\left(\frac{\theta^\gamma}{x^{\gamma-1}}\right). \end{aligned}

A desigualdade dada θ>x(γ−1)/γ\theta>x^{(\gamma-1)/\gamma} implica θγ>xγ−1\theta^\gamma>x^{\gamma-1}: a razão dentro do logaritmo excede 1, logo ΔSAB′>0\Delta S_{AB'}>0. Não se troca entropia, pelo que Si,AB′=ΔSAB′S_{\mathrm{i},AB'}=\Delta S_{AB'}. A entropia do gás aumenta por produção sem receber calor.

Questão 3. Durante a descarga brusca, as razões entre os estados final e inicial desta etapa são

TB"TB′=θφθ=φ,VB"VB′=θφθ/x=xφ.\frac{T_{B"}}{T_{B'}}=\frac{\theta\phi}{\theta}=\phi, \qquad \frac{V_{B"}}{V_{B'}}=\frac{\theta\phi}{\theta/x}=x\phi.

Assim,

ΔSB′B"=ncVln⁡φ+nRln⁡(xφ)=ncV[ln⁡φ+(γ−1)(ln⁡x+ln⁡φ)]=ncV[γln⁡φ+(γ−1)ln⁡x]=ncVln⁡(φγxγ−1)>0.\begin{aligned} \Delta S_{B'B"} &=nc_V\ln\phi+nR\ln(x\phi)\\ &=nc_V[\ln\phi+(\gamma-1)(\ln x+\ln\phi)]\\ &=nc_V[\gamma\ln\phi+(\gamma-1)\ln x]\\ &=nc_V\ln\left(\phi^\gamma x^{\gamma-1}\right)>0. \end{aligned}

Com efeito, φ>x−(γ−1)/γ\phi>x^{-(\gamma-1)/\gamma} implica φγxγ−1>1\phi^\gamma x^{\gamma-1}>1. Novamente Se=0S_{\mathrm{e}}=0 e Si,B′B"=ΔSB′B"S_{\mathrm{i},B'B"}=\Delta S_{B'B"}. O gás arrefece nesta expansão (φ<1\phi<1), mas a sua entropia aumenta: domina o termo de aumento de volume.

Questão 4. Os estados AA e B"B" têm a mesma pressão e TB"/T0=VB"/V0=θφT_{B"}/T_0=V_{B"}/V_0=\theta\phi, logo

ΔSAB"=ncVln⁡(θφ)+nRln⁡(θφ)=ncPln⁡(θφ)>0.\Delta S_{AB"}=nc_V\ln(\theta\phi)+nR\ln(\theta\phi) =nc_P\ln(\theta\phi)>0.

Usaram-se cP=cV+Rc_P=c_V+R e θφ>1\theta\phi>1. Somam-se agora os dois resultados anteriores:

ΔSAB′+ΔSB′B"=ncV[γln⁡θ−(γ−1)ln⁡x+γln⁡φ+(γ−1)ln⁡x]=ncVγ(ln⁡θ+ln⁡φ)=ncPln⁡(θφ)=ΔSAB".\begin{aligned} \Delta S_{AB'}+\Delta S_{B'B"} &=nc_V[\gamma\ln\theta-(\gamma-1)\ln x\\ &\qquad+\gamma\ln\phi+(\gamma-1)\ln x]\\ &=nc_V\gamma(\ln\theta+\ln\phi)\\ &=nc_P\ln(\theta\phi)=\Delta S_{AB"}. \end{aligned}

Os termos ln⁡x\ln x cancelam-se. Como cada etapa é adiabática, esta soma também é a soma das duas produções de entropia. Repor a pressão exterior em P0P_0 não basta para completar um ciclo do gás: B"≠AB"\ne A, pois TB">T0T_{B"}>T_0 e VB">V0V_{B"}>V_0.

Questão 5. Para A→B→AA\to B\to A, Qtot=Wtot=ΔUtot=0Q_{\mathrm{tot}}=W_{\mathrm{tot}}=\Delta U_{\mathrm{tot}}=0 e Si,tot=0S_{\mathrm{i},\mathrm{tot}}=0. Para A→B′→B"A\to B'\to B",

Qtot=0,Wtot=ΔUtot=ncVT0(θφ−1)>0,Se,tot=0,Si,tot=ΔStot=ncPln⁡(θφ)>0.Q_{\mathrm{tot}}=0,\qquad W_{\mathrm{tot}}=\Delta U_{\mathrm{tot}}=nc_VT_0(\theta\phi-1)>0, S_{\mathrm{e},\mathrm{tot}}=0,\qquad S_{\mathrm{i},\mathrm{tot}}=\Delta S_{\mathrm{tot}}=nc_P\ln(\theta\phi)>0.

O primeiro princípio descreve o trabalho líquido retido como energia interna; o segundo quantifica a irreversibilidade através da produção de entropia. Uma transformação adiabática só é isentrópica se não produzir entropia, como no caso reversível aqui considerado.